Nossa história de hoje começa com nosso grupo de heróis caindo da estratosfera.
Nem toda campanha foi feita para durar mais de uma sessão.
Ou mais de uma cena.
Então sim, começamos com o clichê clássico dos anos 90: corpos despencando do céu, alguns já carbonizados, outros gritando, e aquela narração mental obrigatória ecoando no fundo da cabeça — “Sim, esse sou eu. Você deve estar se perguntando como eu vim parar aqui. Bom, tudo começou ontem de manhã…”
Mas calma. A gente chega lá.
Porque antes desse começo in medias res, em queda livre rumo ao nada, nossos heróis estavam vivendo o que parecia ser o início de um dia tranquilo. Pessoas acordaram. Traumas foram processados — ou pelo menos devidamente ignorados. A vida, de algum jeito, segue em frente.
Vorshan e Gambia foram chamados para um trabalho no Instituto de Engenharia. Sete já estava lá, conversando casualmente com Goblin. E Marcos? Marcos só queria um trabalho discreto. Algo calmo. Algo chato. Algo que o ajudasse a fugir dos próprios problemas — e da vida que ele deixou para trás.
Spoiler: não existe “trabalho discreto” em RPG.
A missão era simples. Escoltar um equipamento sensível da Instituição Lumina. O nome? O Coração da Ponte Planar. Um título que não apenas sussurra “plot device perigosíssimo” — ele grita isso do alto de uma montanha, com raios cortando o céu ao fundo.
A pesquisadora, Seraphine, garante que é tudo perfeitamente seguro. Basta ir a uma festa chique, pegar o artefato e voltar. Sem complicações. Sete, abraçando seu papel de penetrador profissional de eventos de luxo, se convida. Janete dá de ombros e aceita. Dinheiro na mesa. Missão aceita.
Então a parede explode.
Literalmente. Sem aviso. Só BOOM.
As coisas escalam rápido.
Um maluco invade o local, perseguido por soldados armados com fuzis — o que, na economia atual, é basicamente como ser perseguido por pessoas arremessando sacos de cinco quilos de café. Ele ativa a máquina, leva um choque, ri na cara da física e do bom senso, solta algo como “Vocês só vão me encontrar desta vez!”… e morre logo em seguida.
Ativar a máquina não manda ninguém para outra dimensão. Em vez disso, deixa no ar aquele cheiro inconfundível de ozônio e eletricidade estática — o perfume clássico de algo muito errado que quase aconteceu. Ou aconteceu e eles naõ sabem. De toda forma, sobrevivido o conflito e sem informações úteis para extrair e com alguns cadáveres agora fazendo parte da decoração, o grupo faz o que qualquer party sensata faria: segue a vida. Eles têm um baile para ir.
Prioridades.
E como diria Joseph Climbert, a vida é uma caixinha. Antes da festa, cada um resolve pendências pessoais e… bem. Bad Ending desbloqueado ainda no meio da tarde. A namorada de Marcos é assassinada no hospital. A casa de Vorshan pega fogo com a família ainda dentro. Gambia vai reencontrar o ex na festa — acompanhado da atual namorada dele. O clima emocional do baile é basicamente “depressão em traje formal”.
Mas enfim. Festa.
Roupas caríssimas. Bebidas absurdamente caras. Senadores, diretores, a elite de Neo Arcania se banhando na própria importância. Sete tenta fazer networking com outros Ceruleos e recebe um choque de realidade bastante claro: não, ele definitivamente não se encaixa ali. Uma festa raíz.
Até que Marcos — já bebendo com o único objetivo de apagar a tarde inteira — olha para baixo pela janela. Dois furgões estão subindo. Voando. Na contramão. E o que sai deles? Ninjas. Claro que são ninjas. Usando máscaras de demônio e porcelana, porque se você vai invadir um gala com vans voadoras, o mínimo é manter a estética.
Uma bomba explode na mesa da senadora. A senadora morre. Uma criança morre. Várias pessoas não citadas morrem. Sete e Gambia quase morrem. O caos se instala. Eira é espancada. O Coração é roubado. E Marcos, num momento que só pode ser descrito como loucura pura ou um desejo de morte extremamente convicto, decide que a melhor terapia possível é se jogar dentro de um dos furgões em pleno voo.
E, de alguma forma… dá certo.
Marcos vai full GTA com o veículo, o que significa que o que restou dos nossos heróis agora tem um meio de perseguir os criminosos que roubaram o Coração. Trilha synthwave do Top Gear começa a tocar enquanto o grupo persegue vans voadoras pelos céus. Um horror extraplanar incompreensível derruba o veículo, e nos destroços o grupo recupera o artefato e um mapa indicando a base inimiga.
No dia seguinte, eles embarcam num balão — sim, um balão. Depois de vans voadoras, decidimos regredir tecnologicamente — para chegar a uma estação próxima da estratosfera. Ao chegar, claro, traição. Um golpe de Estado. A Ordem da Chama Sagrada resolve aparecer.
Gambia improvisa uma solução — gambiarra, trocadilho que estava esperando pra acontecer— para criar uma distração. Tiros começam a ecoar. Um portal se abre. Mas em vez de um bolo — que era uma mentira — o portal entrega um buraco negro. Um vórtice. Um vazio sugando tudo ao redor.
O grupo consegue escapar da gravidade? Sim.
Consegue escapar de uma queda de dez quilômetros? Não.
E quando o chão se aproxima, a morte é certa e—
GLITCH.
Tela preta.
Carregando Save…
Acordamos de volta no laboratório. Exatamente antes da parede explodir.
Sete, Gambia, Marcos e Vorshan… todos mantiveram suas memórias. Lembranças intactas. Experiência acumulada. Mas Seraphine e Janete não lembram de nada.
Então, desta vez, a parede não explode. A namorada de Marcos. A filha de Vorshan. Todo mundo está vivo. Por enquanto. É um New Game+. O grupo agora conhece o futuro. Sabe quem vai morrer, quem vai trair, onde os ninjas vão estacionar a van.
…ou será que sabem?

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