Dez anos se passaram desde o fim da Guerra dos Cem Anos, e o mundo ainda está apenas começando a cobrir as cicatrizes deixadas por um conflito tão longo e devastador. As Tribos da Água do Norte e do Sul seguem em um lento e difícil processo de reconstrução, não apenas de suas cidades e defesas, mas também da relação entre si. A antiga ideia de irmandade entre as duas tribos foi profundamente abalada quando, diante do avanço da Nação do Fogo, cada uma precisou lutar praticamente sozinha para sobreviver. Agora, sob a liderança da mestra Katara e do comandante Sokka, esforços diplomáticos, militares e culturais estão sendo coordenados para restaurar essa união — mas a confiança, como o gelo quebrado, leva tempo para se recompor.
O Reino da Terra, por sua vez, atravessa transformações igualmente profundas. Lentamente, suas fronteiras estão sendo restauradas e antigas cidades ocupadas retornam ao seu controle. No entanto, a queda de um governo marcado por corrupção, negligência e interesses pessoais não significa o surgimento imediato de estabilidade. A ajuda do Avatar e de seus aliados foi decisiva para derrubar estruturas decadentes de poder, mas reconstruir uma nação inteira exige mais do que vitórias heroicas. A terra, afinal, não muda com facilidade — e o Reino da Terra carrega o peso de sua própria história em cada passo desse processo.
Na Nação do Fogo, entretanto, os desafios talvez sejam ainda maiores. O Senhor do Fogo Zuko encerrou oficialmente a guerra e iniciou reformas profundas em sua nação, tentando substituir décadas de expansionismo militar por uma nova política de cooperação internacional. Nem todos, porém, aceitaram essa mudança de rumo. Após mais de um século de doutrinação estatal afirmando que a Nação do Fogo lutava apenas para se proteger e libertar o mundo da opressão estrangeira, convencer a população de que aquela narrativa era propaganda não é tarefa simples. Tensões políticas crescem nos bastidores, enquanto facções conservadoras defendem que a princesa Azula seria a legítima herdeira do trono e que Zuko não passa de um usurpador — uma acusação que encontra eco em antigos decretos de sucessão assinados pelo próprio Senhor do Fogo Ozai. Evitar que essas tensões se transformem em uma nova guerra interna tornou-se uma prioridade silenciosa, mas urgente.
Em meio a esse cenário instável, permanece a delicada questão dos territórios ocupados durante a guerra. Embora o Senhor do Fogo tenha se comprometido oficialmente a devolvê-los ao Reino da Terra, a realidade é muito mais complexa do que qualquer tratado poderia prever. Após três gerações vivendo nessas regiões, muitos colonos da Nação do Fogo já não se veem como invasores — eles nasceram ali, criaram famílias ali e construíram suas vidas sobre aquela terra.
Entre todos esses territórios, poucos são tão simbólicos quanto Cranefish Town.
Originalmente conhecida por suas raras e exóticas garças-peixe e por seu papel como um modesto porto comercial do Reino da Terra, a cidade foi uma das primeiras a cair nas mãos da Nação do Fogo ainda nos estágios iniciais da guerra. Ao longo das décadas seguintes, Cranefish Town deixou de ser apenas um entreposto costeiro e foi transformada em um importante estaleiro militar, tornando-se peça-chave para sustentar a presença naval da Nação do Fogo no continente inimigo. Seu novo papel estratégico alterou completamente sua identidade — econômica, cultural e política — transformando-a em um símbolo vivo da ocupação.
Hoje, desmilitarizar Cranefish Town não é apenas uma questão administrativa. É uma questão histórica, emocional e diplomática.
Talvez buscando estreitar laços entre seus habitantes, talvez tentando ganhar tempo diante de decisões difíceis que ainda precisam ser tomadas, o governo provisório da cidade anunciou a realização do Festival da Confraternização. O evento pretende demonstrar que a convivência entre cidadãos da Nação do Fogo e do Reino da Terra ainda é possível, e que um futuro compartilhado pode existir apesar das cicatrizes do passado.
Ao menos, essa é a esperança.
Porque, em um mundo que ainda aprende a viver depois da guerra, esperança também pode ser uma aposta arriscada.
Neste cenário, Cranefish Town torna-se o centro das atenções do mundo, atraindo para suas fronteiras todo tipo de interesse — diplomatas curiosos, comerciantes ambiciosos, artistas errantes, agentes discretos e velhos inimigos que prefeririam jamais voltar a se encontrar. O Festival promete celebrar o futuro, mas como sempre acontece em tempos de mudança, ele também convoca os fantasmas do passado.
Bao Kin, um veterano de guerra apesar da pouca idade, chegou à cidade movido por um propósito muito específico. Entre bandeiras coloridas e multidões festivas, ele procura por um antigo nêmesis dos dias de batalha: um capitão da Nação do Fogo conhecido como Shuren. Em tempos normais, encontrar alguém assim seria como procurar uma agulha em um palheiro — mas durante um evento dessa magnitude, com oficiais, mestres e representantes de todas as nações circulando livremente pelas ruas, Cranefish Town talvez seja o único lugar no mundo onde esse encontro pode acontecer. Para Bao Kin, o festival não representa celebração alguma. Representa acerto de contas.
Para outros, no entanto, o festival fala menos sobre o passado e muito mais sobre o futuro.
Manami é uma jovem dobradora de fogo guiada por ideais de reforma e mudança — convicções que nem sempre encontram espaço para florescer em sua terra natal. Ainda assim, ela acredita que o mundo está mudando, e que eventos como este são sinais disso. Se existe um lugar onde vozes novas podem ser ouvidas, onde alianças improváveis podem nascer e ideias ousadas podem ganhar forma, certamente é aqui. Para ela, Cranefish Town não é apenas um destino. É uma promessa.
Li-An compartilha de uma visão semelhante… embora por motivos bem diferentes. Criado nos anéis inferiores de Ba Sing Se, ele aprendeu cedo que grandes eventos não são feitos apenas de discursos e celebrações — são feitos de distrações. Multidões significam oportunidades. Visitantes significam bolsos cheios. E bolsos cheios significam possibilidades. Enquanto diplomatas conversam sobre o futuro do mundo, Li-An pretende garantir algo muito mais importante: o próprio futuro.
Enquanto isso, Hiroshi segue outro tipo de trilha. Ele está à procura de sua irmã Hanako, uma prodigiosa dobradora de fogo que nunca esteve — literal e metaforicamente — em seu elemento nas terras geladas e conservadoras de Yu Dao. A última pista que encontrou sugere que ela partiu em busca de um mestre capaz de ajudá-la a desenvolver suas habilidades. E se isso for verdade, não existe lugar mais provável para encontrá-la do que um festival que atrai alguns dos maiores dobradores de fogo fora do Arquipélago do Fogo. Talvez Hanako não precise de sua proteção. Talvez nunca tenha precisado. Mas esse é um risco que Hiroshi simplesmente não está disposto a correr.
E assim, vindos de histórias diferentes, carregando motivações distintas — vingança, esperança, ambição e preocupação — todos eles acabam reunidos no mesmo lugar: uma balsa abarrotada de passageiros, avançando lentamente pelas águas agitadas em direção ao porto de Cranefish Town, onde o destino de cada um deles está prestes a mudar.
Antes mesmo que a balsa consiga atracar no cais de Cranefish Town, algo chama atenção no céu da baía. Uma revoada apressada de garças-peixe levanta voo de repente, rompendo a tranquilidade da manhã. O movimento não é natural. Não é o voo preguiçoso de aves acostumadas ao tráfego portuário. É fuga.
Um murmúrio começa no convés. Primeiro entre os marinheiros. Comentários curtos, trocados em voz baixa. Depois entre os passageiros. Algumas pessoas interrompem conversas no meio da frase. Outras se levantam lentamente. Em poucos segundos, dezenas de olhares se voltam para o horizonte da baía.
Então ele aparece. Um navio de guerra da Nação do Fogo entra lentamente nas águas do porto. Não é apenas um navio. É um encouraçado pesado.
A proa corta a água como uma lâmina negra avançando com calma deliberada. A quilha reforçada, coberta por placas metálicas curvas, não foi construída apenas para enfrentar tempestades — foi feita para atravessar outras embarcações. Vapor escapa de aberturas laterais com um som grave e ritmado, como a respiração profunda de um animal colossal despertando após um longo sono.
No centro da embarcação ergue-se a superestrutura tradicional da Nação do Fogo: plataformas sobrepostas em estilo pagoda militar, cada nível protegido por sacadas reforçadas e faixas vermelhas marcadas com o emblema da família real. Canhões navais permanecem apontados para o mar.
Não para a cidade. Mas continuam sendo canhões. E para muitos ali presentes, eles ainda carregam lembranças de feridas que não cicatrizaram.
Bao Kin não precisa perguntar o nome daquele navio. Seu treinamento militar responde por ele. As lições da academia voltam com clareza imediata: perfil da quilha, disposição das plataformas, posição das chaminés, bandeiras cerimoniais. Aquele não é um encouraçado qualquer. É o Wani.
O navio da família real da Nação do Fogo.
Assim que a prancha da balsa finalmente encosta no cais, o som do mundo muda. Não é mais o mar. Agora é a cidade. Vozes misturadas em sotaques diferentes ecoam por todos os lados. Cordas são puxadas com pressa. Madeira range sob peso excessivo. Panelas batem em cozinhas improvisadas. Música distante chega carregada pelo vento, vinda do centro da cidade — ensaios, celebrações, talvez procissões já começando a se formar.
E por cima de tudo isso, bandeiras.
Lanternas vermelhas da Nação do Fogo pendem entre mastros ao lado de faixas verdes do Reino da Terra. Algumas estão alinhadas com cuidado cerimonial. Outras parecem improvisadas, presas às pressas, como se alguém tivesse decidido que elas precisavam estar ali… mesmo sem saber exatamente por quê.
O cais está cheio demais para um dia comum. Estivadores trabalham rápido demais. Soldados patrulham ostensivamente demais. Comerciantes falam alto demais. E todo mundo observa quem chega.
Entre ambulantes vendendo espetinhos de carne de origem não totalmente esclarecida, casas de chá improvisadas e guardas da Nação do Fogo circulando em patrulhas aparentemente relaxadas — mas sempre atentas — Li-An começa a fazer o que sabe fazer melhor: observar oportunidades.
É então que algo chama sua atenção: no Armazém 17, alguns estivadores descarregam caixas rápido demais. Olham para os lados com frequência demais. Trabalham em silêncio demais. Não conversam. Não reclamam. Não negociam pausas. Li-An cresceu tempo suficiente nas ruas para reconhecer aquilo imediatamente: eles não são trabalhadores pagos por hora, são homens tentando terminar algo antes que alguém perceba.
Seus companheiros tentam demovê-lo da ideia de se envolver com aquele tipo de gente. Festival grande atrai problemas grandes — e problemas grandes costumam atrair consequências maiores ainda. Li-An rejeita a sugestão com firmeza, ignorar algo assim não faz parte de quem ele é.
Profundamente incomodado com seu colega rejeitar o caminho mais lógico de não arrumar problemas Hiroshi toma uma decisão temerária: se é pra resolver aquilo de uma vez, então ele vai. Marchando diretamente até o armazém, ele assume a postura de quem está acostumado a ser ouvido. Sua voz é firme. Seu tom é oficial. Seu argumento é simples e impossível de ignorar: ele é um emissário da Tribo da Água do Norte e exige uma explicação.
O encarregado do armazém observa Hiroshi por alguns segundos longos demais. Depois sorri. E o convida para entrar. O que poderia dar errado?
Quando os outros percebem Hiroshi entrando sozinho no armazém — e, mais importante ainda, quando notam alguns dos supostos estivadores interrompendo discretamente o que estavam fazendo para “auxiliar” a conversa — o sinal de alerta acende imediatamente entre seus companheiros de viagem. Aquilo era problema, se eles já tinham visto algum na vida. Do tipo que não costuma terminar com uma conversa educada.
Sem perder tempo, Manami e Bao-Kin seguem na direção do armazém. Enquanto isso, Li-An tenta improvisar uma rota alternativa de entrada — e, principalmente, de saída. Seus olhos já procuram pontos elevados, passagens laterais, qualquer acesso secundário que possa oferecer vantagem caso a situação piore. Ele encontra uma escada encostada entre caixas de transporte próximas e inicia uma negociação apressada com o dono do equipamento. Infelizmente, o vendedor se mostra teimoso, desconfiado e pouco disposto a “emprestar” sua propriedade para um estranho com pressa demais e explicações de menos. O tempo escorre rápido demais para insistir.
Dentro do Armazém 17, a situação é exatamente tão ruim quanto parecia do lado de fora: Hiroshi foi cercado, e os homens com canos e exibindo os musculos abandonam qualquer pretenção de que estavam trabalhando, comentando entre eles o quanto eles poderiam conseguir por um nobre da Tribo da Água - ou qualquer versão disso que eles tenham entendido.
Eles formam um semicírculo ao redor dele, avançando com cuidado calculado. O ar dentro do galpão está tenso, pesado, carregado de expectativa. Hiroshi usa sua dobra de agua para criar gelo e manter os homens afastados, ganhando tempo suficiente para que Manami entre.
Sem levantar a voz, mas com firmeza suficiente para dominar a atenção da sala, ela exige resolver aquilo de forma diplomática. Explica que houve um mal-entendido. Nada mais. Ninguém precisava transformar aquilo em algo maior do que já era. Normalmente, palavras assim seriam ignoradas por homens naquela posição, mas então ela remove o sobretudo e o vermelho de suas vestes da Nação do Fogo aparece sob a luz difusa do armazém e algo muda.
Os homens trocam olhares curtos entre si. Não parecem intimidados exatamente — mas claramente hesitam. Como se não tivessem certeza de até onde poderiam ir. Como se estivessem avaliando riscos que não estavam ali alguns segundos antes. Manami percebe a abertura e com calma, firmeza e precisão, conduz a conversa para o caminho de menor atrito possível: ninguém viu nada. Foi apenas um mal-entendido. Ninguém precisa sair prejudicado. Cada um segue com sua vida e o festival continua.
Antes de sair, ele lança um último olhar para as caixas empilhadas próximas à parede — caixas protegidas demais, pesadas demais para carga portuária comum. O instinto militar fala antes da prudência e ele tenta verificar o conteúdo, o que muda toda boa vontade dos agressores.
Aquilo não era mais um mal-entendido, era uma afronta. Eles avançam. Felizmente, nesse exato momento, Li-An finalmente chega ao armazém — ainda sem escada, sem plano alternativo elegante… mas com excelente senso de timing. Ele não entende completamente o contexto, mas não precisa entender: basta um olhar para reconhecer uma situação ruim. Agindo por reflexo e treinamento, ele dispara em direção à entrada e desfere um chute preciso contra a porta do armazém. A madeira salta dos trilhos com um estalo seco e violento, tornando o ato de abrir a porta do armazem requerer tempo suficiente para eles se perderem na multidão do cais — vendedores gritando ofertas, trabalhadores carregando mercadorias, visitantes atravessando passarelas improvisadas, bandeiras tremulando sobre suas cabeças.
E o Armazém 17 fica para trás — junto com as caixas misteriosas… e a certeza de que aquilo ainda não terminou.
A ESTALAGEM DA CARPA-ELEFANTE
Tentando se manter longe de problemas — ou pelo menos dos mesmos problemas — e reorganizar seus pensamentos após o incidente no armazém, nossos heróis decidem procurar uma estalagem onde possam passar a noite e discutir com calma o que fazer no dia seguinte. Infelizmente, isso é muito mais fácil de falar do que fazer.
Por causa do festival, Cranefish Town está completamente lotada. Estalagens, pensões, casas de chá com quartos improvisados, depósitos adaptados para viajantes — tudo ocupado. E, como logo se torna evidente, a falta de quartos não é nem o maior problema ali.
Quando finalmente chegam à recepção da Estalagem da Carpa-Elefante, encontram uma jovem atendente claramente sobrecarregada tentando manter a ordem em meio ao barulho, aos pedidos simultâneos e às reclamações cruzadas de hóspedes frustrados. Mas não é apenas o movimento que a deixa desconfortável e não é difícil perceber o motivo.
Algumas mesas do salão principal estão ocupadas por soldados da Nação do Fogo de folga — armados, barulhentos e talvez tendo tomado uma caneca ou duas amais do que o bom senso recomendaria. Soldados de folga e bebida raramente formam uma combinação tranquila em qualquer lugar do mundo, e o fato de serem soldados da Nação do Fogo definitivamente não ajuda os moradores locais a se sentirem mais seguros.
Li-An tenta tranquilizar a atendente, diminuindo a gravidade da situação com a naturalidade de quem já viu coisas piores. Ele comenta que os soldados provavelmente estão ali apenas para beber, relaxar e matar tempo. O que, de fato, parece acalmar um pouco a jovem. Infelizmente, outra pessoa escuta.
Atrás dele, um senhorzinho vestindo roupas simples nas cores tradicionais do Reino da Terra ergue a cabeça imediatamente ao ouvir aquilo — e não demonstra a menor intenção de ficar em silêncio. Com surpreendente energia para alguém de sua idade, ele dispara sua opinião em voz alta: "é isso mesmo, aqueles guardas são parasitas! Estão ali apenas para explorar a cidade, cobrar impostos, se aproveitar dos moradores!"
E isso é o suficiente, a confusão começa ali.
Os soldados se levantam quase ao mesmo tempo, empurrando cadeiras para trás com força suficiente para silenciar metade da estalagem. Eles exigem satisfações. O grupo intervém imediatamente, tentando impedir que a situação escale antes que alguém termine preso — ou pior, atravessado por uma alabarda. A discussão cresce rápido demais, vozes se sobrepõem, clientes recuam discretamente. O staff da estalagem desaparece para os fundos. Manami e Hiroshi conseguem apresentar um argumento surpreendentemente eficaz: não valeria a pena para soldados de folga perderem seu tempo livre preenchendo papelada por causa de uma discussão trivial.
Por um momento, isso quase resolve tudo, entre beber sentado e preencher papelada oficial, a escolha parece óbvia. Mas então Bao-Kin decide reforçar o argumento, infelizmente, talvez não da forma mais diplomática possível. Sua intervenção soa para os guardas menos como um conselho e mais como uma sugestão pública de que eles estavam sendo preguiçosos. E ninguém gosta de ser chamado de preguiçoso em público. Especialmente soldados armados.
A tensão retorna com força total, as vozes sobem novamente. E poucos segundos depois, todos ali recebem voz de prisão. Diante disso, Li-An toma uma decisão rápida, talvez rápida demais. Ele tenta escapar atacando primeiro e abrindo caminho entre as mesas da estalagem — mas o espaço apertado, as cadeiras espalhadas e os clientes entrando em pânico tornam a manobra mais difícil do que parecia.
O golpe falha e a situação piora imediatamente. Por alguns instantes perigosos demais, parece inevitável que alguém vá terminar aquela noite preso. Ou morto. Talvez ambos.
Depois de gastar saliva suficiente para encerrar uma pequena guerra, o grupo consegue redirecionar a atenção dos guardas oferecendo algo muito mais interessante do que uma briga de taverna: tinha algo claramente suspeito acontecendo no Armazém 17. Ou teria informado isso a milicia, não fosse que um dos guardas é atacado pelas costas. Um homem que até então parecia apenas mais um cliente comum revela-se um dobrador de terra.
O chão vibra, a madeira estala, a estalagem mergulha no caos. Os guardas abandonam imediatamente a discussão anterior e se voltam para o combate. Clientes correm, mesas viram barricadas improvisadas, alguém derruba uma bandeja inteira de tigelas fumegantes.
E o grupo aproveita a oportunidade perfeita para sair dali, não antes, porém, de dois pequenos acontecimentos importantes. Bao-Kin salva a vida de um dos próprios guardas ao desviar um pilar de terra que teria esmagado o soldado contra o teto. E Li-An, demonstrando excelente timing profissional, consegue surrupiar a bolsa do dobrador de terra em meio à confusão.
Descendo rapidamente as escadas da estalagem, já em retirada, Li-An verifica o conteúdo da bolsa e encontra algo... estranho. Tem muito dinheiro ali. Dinheiro demais para um plebeu comum bebendo sozinho em uma estalagem qualquer. Entre as moedas, há também algo ainda mais estranho: uma peça preta de pai sho, marcada com o símbolo de uma chama vermelha.
Mas não há tempo para refletir sobre isso: assim que o grupo alcança a rua… o primeiro andar inteiro da estalagem explode. Não uma explosão comum. É grande demais. Violenta demais. Muito maior do que qualquer ataque típico de um dobrador de fogo conseguiria produzir — ou pelo menos maior do que qualquer dobrador normal.
A onda de choque sacode a rua.
Janelas tremem.
Poeira sobe.
Pessoas gritam.
E, enquanto todos tentam entender o que acabou de acontecer, o mesmo senhorzinho que havia iniciado toda a confusão lá dentro passa tranquilamente por eles na calçada, observa o prédio em chamas… e comenta com sincera admiração:
— Tá pegando fogo, bicho! 🔥
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